Para entender melhor o contexto desta citação, sugiro que
leia antes esta AQUI, que servirá de base para um melhor entendimento.
" A libertação do sistema acima descrito começa por um
caminho que, à primeira vista, parece paradoxal. Ela se inicia com a
conscientização de que existem em nós desejos e anseios, aos quais a indústria
de consumo não pode responder. Aos quais, aliás, nenhuma indústria de prazer
conseguirá responder.
Ela continua, depois, com a aceitação perante si-mesmo de
que ter anseios e desejos não satisfeitos é legítimo e normal. Esses desejos
não satisfeitos e as suas subsequentes frustrações fazem parte do ser humano.
Eles constituem o seu modo de ser. A espécie humana conseguiu sobreviver por
ser capaz de suportar frustrações e de continuar a viver apesar delas. Mas,
mesmo que muitos dos seus desejos nunca possam ser satisfeitos, o homem
continua sendo marcado por um profundo anseio pela felicidade. O homem, por
natureza, é um sonhador de algo que o transcende; de algo que vai além de todas
as suas limitações.
Por causa dessa sua tendência rumo ao transcendente, ele,
durante toda a sua vida, permanece num estado de insatisfação. Descobrimos,
assim, o fato paradoxal de que o estado de frustração, por assim dizer, faz
parte do estado natural de cada um de nós.
Se queremos tornar-nos felizes, primeiro, devemos reconhecer
que a felicidade plena não pode ser alcançada. Por causa disso, devemos aceitar
que vivemos frustrados. Devemos aprender a viver com as nossas frustrações. Vou
mais longe ainda: devemos aprender a compreender as nossas frustrações como
algo positivo.
Como algo natural. Como algo que faz parte da nossa condição
de vida.
Ninguém gosta de ser frustrado mas, apesar disso, estaremos
sempre frustrados. Podemos até dizer que ser frustrado é a condição natural do
ser humano, porque nunca em sua vida o homem é capaz de alcançar aquilo que
permanece o seu último anseio: a felicidade plena, a realização ilimitada, uma
vida em plenitude.
Reconhecer tal fato é o caminho através do qual nós nos
libertamos da ditadura da busca constante pelo prazer. É possível viver não
sentindo prazer ininterruptamente. Somos capazes de viver sem prazer!
Essa afirmação, em nada, quer sustentar aquela antiga
ideologia religiosa, conforme a qual o homem deve sofrer e viver privações.
Nada disso! Todo homem deve ser feliz e tem o direito de ser feliz!
Mas, numa sociedade como a nossa, que absolutizou a
ideologia do prazer e do bem-estar, é necessário lembrar que o homem, por outro
lado, também é capaz de suportar uma dose bastante alta de dor e de
frustrações. E, suportando tais situações, ele não quebra. Em vez disso, até
passando por tais experiências negativas, pode crescer como pessoa e como
indivíduo. Estamos, assim, confrontados com a verdade incômoda e paradoxal de
que, suportando dor e passando por frustrações, nós nos tornamos pessoas mais
desenvolvidas e indivíduos mais ricos.
Ampliando essa perspectiva, podemos dizer que de certa maneira precisamos de crises, para tornar-nos pessoas humanas realmente desenvolvidas. Passar por crises faz parte daquilo que é ser humano;
Não querer enfrentar crises conduz a pessoa a uma situação
de perda da sua essência.
Com essa afirmação, estamos na contramão de tudo aquilo que
propaga a ideologia da atual sociedade de consumo e de prazer. Principalmente
por isso é importante que a filosofia conscientize de novo sobre tal fato.
Numa sociedade programada para evitar toda e qualquer dor, numa sociedade educada para buscar prazer a todo preço, devemos de novo recuperar a consciência sobre uma das verdades fundamentais da existência humana: a dor faz parte da vida e, consequentemente, faz também parte da busca de sentido desta vida.
Citação retirada do livro: J.BLANK, Renold, Encontrar
Sentido na Vida - Propóstas Filosóficas, pág 28. Editora Paulus, 1ª edição.
SP,2015
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